Submissão Tupiniquim

Porque até nossa distopia é de baixo orçamento.

 

 

 

 

Em busca de um sono decente

Dormir até 13h (mesmo tendo deitado pouco antes da meia noite), chegar ao trabalho com cara de sono, me trancar no banheiro da empresa e dormir mais uma horinha era uma rotina na minha vida. Mesmo com tantas horas de sono, eu não ficava nada descansada e a letargia tomava conta da minha vida, a maior parte dos momentos em que eu tinha o desprazer de estar acordada. A única coisa que me permitia ter uma vida funcional e não ser demitida é que meu cérebro tinha um pico de atividade que durava das 16h às 21h, e eu resolvia todas as pendências nesse curto espaço de tempo.

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No resto do tempo, eu queria era dormir mesmo.

E a vida era aquela coisa bem desagradável entre uma soneca e outra.

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Meu sono era tudo, menos tranquilo. Ao adormecer e ao acordar, eu tinha sonhos semiconscientes, muito vívidos e carregados de conteúdo emocional. Vários deles eram divertidos: eu escapava de zumbis, vampiros e monstros. Adorava essas aventuras que me permitiam viver loucamente enquanto dormia tudo aquilo que a tediosa vida real não me permitia. Só que eu acordava como se tivesse de fato matado zumbis a noite toda.
Às vezes era mais tenso: eu sonhava, por exemplo, que minha família inteira tinha morrido num acidente de avião, e que eu tinha que providenciar o traslado dos corpos. Despertava e demorava 10 minutos para me dar conta de que aquilo não era real e passava o dia sentindo a tristeza de ter recebido a notícia da morte dos meus parentes – e procurando pacotes funerários no Google para saber quanto custa uma desgraça dessas.

Cadê meu diagnóstico

No meu vai e vem de psiquiatras que não me davam muita atenção – até porque eu não queria ser ouvida, só queria pegar receitas, tomar remédios e anestesiar meu desespero, não melhorar de fato a minha saúde mental – um deles chegou a me receitar Modafinil diante da minha reclamação de que, se eu fosse obrigada a acordar antes do meio dia, eu babaria na minha roupa.

Modafinil, pra quem não sabe, é um estimulante usado para tratar narcolepsia e, em alguns casos, hiperatividade. Ele melhora a cognição em algumas pessoas. Só que assim: cognição comprometida nunca foi exatamente um problema meu e eu também não era narcoléptica, só dorminhoca. Enfim. Esse remédio só me deu dor de cabeça – literalmente – e não ajudou em nada com a minha ansiedade galopante.

Os sonhos foram ficando cada vez piores e mais semelhantes a alucinações. E aí eu descobri que o termo para descrever aquelas coisas que a gente tem no começo e no fim do sono, quando a gente não está nem bem dormindo nem bem acordado é alucinação mesmo. Alucinações hipnagógicas e hipnopômpicas. Elas são relativamente comuns e não são necessariamente sintoma de alguma doença, mas se forem um incômodo muito grande pode ser bom investigar a causa.

Foi nessa época, aliás, que tatuei “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”, trecho do cínico e niilista poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, até hoje uma das minhas obras favoritas em língua portuguesa. Não era a esses sonhos que o Pessoa se referia. Mas eu achei o trocadilho pertinente.

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E como a minha hipocondria aumentou com a idade, eu fui a vários médicos e decidi fazer vários exames, incluindo uma polissonografia no Instituto do Sono, um dos principais centros de estudos para distúrbios do sono no país, para descobrir o que havia de errado comigo. Todo mundo dizia a mesma coisa: olha, está tudo bem com você organicamente, deve ser sua cabeça, faça terapia, é depressão. Eu ouvia e seguia com a vida, porque eu meio que já estava conformada em ter depressão para sempre.

A virada

Mas eis que, quando eu PIOREI DE VEZ foi que eu consegui começar a ficar melhor. Deprimidinha eu sempre tinha sido, mas teve uma hora que eu fiquei DEPRIMIDONA e percebi que não tinha mais jeito: estava na hora de encontrar um psiquiatra decente e começar terapia.

Meu psiquiatra sempre me perguntou do meu sono, desde a primeira sessão. No começo, não receitou nenhum remédio para isso e foi observando meus relatos e sintomas. Minha terapeuta, por outro lado, achava meus sonhos um material e tanto para análise – eram tantos detalhes e tanto conteúdo emocional que ela conseguiu identificar várias questões, pois DISCRETO meu inconsciente não é.

Depois de alguns meses, meu médico sugeriu que eu começasse a usar remédios para dormir. Achei estranhíssimo. Afinal, eu já dormia muito. Mas resolvi confiar e aceitei a prescrição: um era um medicamento para manter o sono profundo e outro para pegar no sono rápido (não recomendo ficar mexendo no celular depois de tomá-lo).

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O tempo foi passando e o tratamento para o sono, combinado ao tratamento com antidepressivos, à terapia e a outras práticas saudáveis – como esportes e amizades legais, por exemplo, foram fazendo efeito. Pela primeira vez em muitos anos, eu comecei a me sentir descansada e funcional depois de dormir.

Meu cérebro ainda dá o seu melhor entre 16h e 21h, mas se ele precisar ser usado antes ou depois disso, consegue. E os sonhos alucinatórios diminuíram muito. Ainda os tenho, mas não sou tão atormentada por eles e não fico lembrando com tanta riqueza de detalhes – com menos energia gasta matando zumbis e monstros imaginários, me sobra mais disposição pra enfrentar a realidade.

O tratamento com remédios funcionou muito bem para mim e, no meu caso, se tratava mesmo de uma correlação com a depressão – provavelmente o sono ruim retroalimentava a depressão e vice-versa. Algumas pessoas dormem mal por questões hormonais ou outras alterações fisiológicas. Nem sempre a solução é medicamentosa – algumas vezes, mudanças na rotina de alimentação ou a prática de exercícios podem ajudar a pessoa a ter uma noite mais tranquila. Em outros casos, problemas respiratórios como o desvio de septo podem ser a raiz do problema.

Como a qualidade do sono está muito ligada à qualidade de vida, uma investigação sobre as causas por trás das noites mal dormidas podem ser a diferença entre estar bem e estar mal.

Cuidado com os Benzôs

Uma coisa que parece ser consenso entre os médicos com quem já conversei é que os benzodiazepínicos – remédios como Rivotril, Frontal e Valium, que estão entre os mais consumidos do Brasil – muito raramente são ideais para tratar distúrbios do sono.

Essa classe de medicamentos é muito útil como tratamento paliativo para crises de ansiedade, e qualquer um que já teve algo parecido com um ataque de pânico sabe da importância desses comprimidos para um momento de desespero, em que você pensa que vai morrer ou enlouquecer.

Os benzos, contudo, não são uma boa opção para tratar ansiedade no longo prazo – para isso, muitas vezes, um tratamento temporário com antidepressivos, por exemplo, pode ser muito menos agressivo e mais eficiente.

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Como eles deixam os usuários mais calmos e lentificados, viram sedutoras armas contra a insônia. O problema é que no dia seguinte parece que você foi atropelado por um caminhão, eles podem viciar, e a tendência é você desenvolver resistência e precisar de uma dose cada vez maior (e sofrer com efeitos colaterais piores).

Longe de mim querer demonizar os benzodiazepínicos, pois teve vários momentos da minha vida em que eles me pouparam de muito sofrimento. Mas se você está usando esses medicamentos para dormir, pode ser uma boa pensar em outras opções.

Transtorno mental não se cura só com amor, positividade, suco verde e yoga

Volta e meia no mundo caótico da internet eu me deparo com alguma receita mágica para vencer doenças mentais como ansiedade, depressão, compulsões e outros transtornos sem precisar de remédios. Afinal, a psiquiatria medicaliza todos os comportamentos e a indústria farmacêutica lucra com nossa desgraça.

A melhor maneira de se enfrentar essas angústias, dizem esses influenciadores, é uma mistura de autoestima (como se isso nascesse em árvore), algum esporte good vibes tipo yoga, meditação, sucos naturais, alimentação saudável, positividade. Tudo, menos dar dinheiro para as farmacêuticas. Não raro esses arautos das boas vibrações estão, olha só, vendendo alguma coisa.

Poucas coisas me parecem tão tóxicas. E não é nem que eu não ache as coisas supracitadas importantes para a minha saúde mental: nado, me penduro em barras para ficar mais forte, tomo muito suco verde, cultivo relações saudáveis e só não medito porque não tenho muito saco, mas sei dos benefícios da prática.

Mas olha aqui: transtorno mental é um assunto muito sério e quem diz que “basta cultivar hábitos saudáveis, não precisa da medicina ocidental” está colocando uma carga horrorosa em cima de um doente que, muitas vezes, sequer vScreenshot_20190405-101154_2ai conseguir adotar tais hábitos adoráveis porque não consegue sair da cama, ou porque está num meio de um surto de mania e não consegue frear seus pensamentos.

Cada vez que publico quadrinhos ou stories com o tema TRANSTORNO MENTAL no meu perfil do Instagram, recebo mensagens com desabafos de gente que se identifica, pedidos de ajuda, e relatos mais positivos de pessoas que já passaram por esse tipo de problema e aprenderam a lidar com eles.

Para os que pedem ajuda meu conselho é sempre o mesmo: procurem ajuda de profissionais de saúde, mais especificamente de psiquiatras e psicólogos. Se não tiverem grana, procurem o CAPS de sua cidade. Os que superaram o problema parecem ter algo em comum: procuraram ajuIMG_Femme_20190301_201602_processedda profissional – nem todos precisaram tomar remédios, mas todos fizeram terapia.

Ninguém se curou com suco, yoga, mindfullness ou práticas artísticas. Todas essas coisas, assim como o apoio de amigos e familiares empáticos que ofereçam compreensão e um ombro pra chorar são importantes no tratamento. Mas a ajuda da medicina ocidental para essas pessoas que – olha só – estão inseridas em um contexto ocidental, foi 100% importante.

– um GATILHO de temas como depressão e suicídio daqui em diante –

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Vale aqui contar um pouco da minha própria história para ilustrar bem o que estou dizendo. Eu nunca gostei muito de estar viva. Lembro-me de pensar “o que eu estou fazendo aqui?” desde que eu tinha sete ou oito anos. Era muita inadequação, impaciência, sentimento de vazio, por uma série de questões, desde a genética (minha família é toda meio macambúzia) até acontecimentos pessoais e um contexto familiar não muito bom. Além disso, eu não conseguia me comunicar com crianças da minha idade, demorei um bom tempo para conseguir ter amigos.

Apesar disso, eu sempre gostei muito de me divertir. E sempre busquei no meio externo formas de tentar escapar do meu vazio. Minha vida era essa gangorra: busca de experiências extremas, estímulos intensos, para não ter que olhar pra dentro e contemplar minha miséria existencial. E, volta e meia, aquela sensação: por que diabos eu fui nascer?

Teve um momento, contudo, que isso se tornou insuportável. Por causa de um trabalho que eu detestava, comecei a ter minhas primeiras crises de ansiedade, aos 22 anos. A sensação era de que eu ia enlouquecer, que estava presa em uma situação sem perspectiva alguma de melhora e não havia saída. A isso se somou uma depressão. Foi a primeira vez que comecei a tomar antidepressivos, receitados por uma médica clínica. Na época, eu não tinha dinheiro para pagar por terapia e nem a orientação adequada para buscar isso na saúde pública.

O antidepressivo funcionou bem. Me tirou do fundo do poço e eu continuei minha busca por coisas que me distraíssem dos meus buracos negros. Volta e meia eu olhava pra dentro e não via nada além de um vácuo desesperado, mas eu seguia vivendo em busca de excessos que me divertissem – afinal, já que estamos condenados a existir, por que não curtir ao máximo?

Não me arrependo dos excessos. Foram ótimos e divertidíssimos – talvez eu volte a praticar alguns, com moderação. Mas cedo ou tarde, a hora de olhar para o abismo chega. E aí veio outra crise de ansiedade e depressão. Horas contemplando meu vazio, mas não daquele jeito estático dos budistas – mas sim de um jeito histriônico, exasperado. E era um vazio bem cheio de mágoas, frustrações, ressentimentos e desequilíbrios, na verdade. Cheio de pensamentos negativos, em espiral, que me torturavam e não saíam da minha cabeça.IMG_Femme_20190209_163431_processed

Pensamentos de que eu era um fracasso. De que eu não precisava ter nascido – por que a minha mãe não tomou um citotec? Planos mirabolantes do que eu faria se tivesse poderes especiais – e a frustração de lembrar que eu não tinha.


MAS EI! POR QUE VOCÊ NÃO MEDITA? YOGA? SUCO VERDE? PENSAMENTO POSITIVO? AMOR? BOAS VIBRAÇÕES? AUTOESTIMA?

Claramente, quem fala isso não tem ideia do que é um transtorno mental. Por mais que você saiba que seus pensamentos não fazem sentido, seus neurotransmissores não concordam com você. Não há nada que você possa fazer para que sua mente saia do atolamento em que entrou – a menos que você conte com ajuda da medicina.

Vocês não entendem o suicida? Pois bem, eu vou explicar o suicida.

Quando você está atolado em pensamentos aterradores sobre os quais você não tem nenhum controle, a dor é imensa. O sofrimento é muito grande. A morte parece sim ser a única forma de parar com isso. Nunca quis me matar, mas eu já quis que meu avião caísse muitas vezes, nas épocas em que estive mal. E fico feliz por morar no segundo andar – nunca tive o impulso de me jogar.

Boa notícia? Depois de alguns meses de tratamento com um bom psiquiatra e uma ótima terapeuta, eu fiquei bem. Os sentimentos de vazio são cada vez mais raros. Cada vez menos questiono a minha existência. E continuo me divertindo bastante – de forma mais equilibrada e um pouco menos inconsequente.

O perfil do instragram fez parte do processo – comecei a desenhar em setembro de 2017 porque precisava de alguma atividade que me tirasse um pouco da minha cabeça (um tanto quanto hiperativa).

Desenhar ajudou muito. Nadar ajuda bastante. O suco verde eu tenho certeza que deve servir para alguma coisa. As minhas amizades foram essenciais. Tenho certeza que meditar seria bom, uma hora quem sabe.
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Mas meu psiquiatra, minha terapeuta e os remédios que venho tomando desde então salvaram minha vida.

Muita gente tem medo dos efeitos colaterais dos remédios. De fato, alguns medicamentos podem gerar apatia, queda de libido ou embotamento afetivo depois de algum tempo. Mas um bom psiquiatra saberá avaliar qual é a hora de parar ou trocar de medicação.

Não me sinto especialmente corajosa por contar a história ou uma heroína por ter “vencido” a depressão. Até porque eu não sei se venci ou se encontrei uma maneira de domar a fera. A questão é que eu não romantizo a DOENÇA: ela se parece muito com uma herpes existencial que vai tomar conta quando você estiver desajustado. E ela é UMA DOENÇA. Assim como a ansiedade, a bipolaridade, o transtorno obsessivo compulsivo, e vários outras DOENÇAS.

Muito cuidado com os discursos “good vibes” “anticapitalistas” que vemos na internet. Eles podem esconder só um charlatão querendo lucrar e se promover em cima da sua fragilidade.

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Podcast sobre economia com Gustavo

Olá,

Estarmorta e Gustavo conversaram sobre temas básicos de economia e reforma da previdência nesse podcast.

E aqui o link para o SPOTFY.

Falei enfaticamente e de forma pouco agradável, eu sei, que eu gostaria que vocês não tentassem nos iluminar com os estudos de Maria Lucia Fattorelli e Denise Gentil. O motivo é meio simples: cobrindo economia há quase dez anos, já nos deparamos com os argumentos delas ALGUMAS VEZES, e achamos uma bosta. Então se seguimos dizendo que a previdência PRECISA de reforma não é porque não conhecemos os referidos pensamentos, é porque achamos eles ruins. Mas aqui fica uma breve explicação do por que:

Tanto Fattorelli quanto Gentil parecem insistir que não há déficit na previdência porque a seguridade social arrecadaria mais do que gasta e que o governo usaria o superávit previdenciário para pagar juros da dívida. Como falamos no podcast, NÃO É BEM ASSIM QUE A DÍVIDA PÚBLICA FUNCIONA.

Em segundo lugar, exploramos no começo do podcast o fascinante conceito econômico de CUSTO DE OPORTUNIDADE: o custo de uma escolha não é apenas o preço dela, mas também aquilo que você deixa de usufruir ou deixa de ganhar quando faz aquela escolha.Então você aí bonitão que fica defendendo que o governo gaste tudo com previdência social se esquece que os recursos são escassos, e que se o estado se tornar um gigantesco fundo de pensão, vai faltar grana pra saúde e educação, por exemplo.

Eu sei que tem gente que não lida bem com o conceito básico de ESCASSEZ DE RECURSOS. A resposta clássica de alguns economistas mais heterodoxos para esse problema é contrair mais dívida (o que leva a um aumento dos juros, dos quais vocês adoram reclamar), ou utilizar outras formas de expansão monetária que geram inflação, um problema seríssimo que o Brasil superou com sucesso graças ao Plano Real, assunto para outro Podcast.

Ademais, mesmo que as pesquisadoras estivessem certas e a previdência atual fosse um show de sucesso ATUALMENTE, o sistema tem que durar gerações e, como estamos envelhecendo e nossa taxa de natalidade caindo, a tendência é ele se tornar cada vez mais deficitário. Vamos parar com o pensamento mágico que o superávit não vai surgir só porque a gente quer.

Mas é sério gente. NÃO ME MANDEM ESTUDOS DA FATTORELLI E DA GENTIL.