Como convenceram a prisioneira de que ela tem a chave da cadeia

Boa parte da minha vida eu fiquei escutando coisas como “a mulher transa quando quer, o homem quando pode; o homem casa quando quer, a mulher quando pode” e piadinhas em que o casamento era sempre uma prisão para o homem: não tinha mais jeito, ele foi enjaulado por uma mulher, ele teve que sucumbir às pressões para se casar e abrir mão da sua divertida vida de solteiro. Isso sem falar nos homens casados que reclamavam da “chatice” das suas esposas, sempre dizendo “amor vamos passar as férias em Paris e amor não vamos trocar de carro esse ano e amor tira os sapatos antes de entrar em casa e amor escuta aqui o que eu estou sentindo e me diz o que está se passando pela tua cabeça e amor que saco eu tenho que fazer tudo nessa casa e amor não estou a fim de transar hoje e amor quem é essa fulana que te ligou”. A mulher incomoda, a mulher custa caro, a mulher sufoca.

Compreendi que casamento era mesmo uma jaula, nunca entendi porque as pessoas se submetiam a isso, porque elas entravam voluntariamente em uma relação que implicava a mulher se tornar uma carcereira chata e o homem se tornar um pássaro com asas cortadas.

Então eu virei uma mulher que não queria casar. Minhas motivações para isso tinham a ver com eu não querer ser uma chata, mas não só. Queria ser bem sucedida no trabalho, viajar o mundo, viver aventuras, ter várias experiências, queria existir sem ter que me preocupar em ver se a jaula estava bem fechada e as asas bem aparadas para o meu amor não voar pra longe. Mas eu achei sim que minha vida afetiva seria fácil, ah, achei.

Afinal, se homens acham o casamento um saco então uma mulher que paga as próprias contas, não se mete nos carros que ele compra com o dinheiro dele, não fica perguntando toda hora o que ele pensa, não está muito interessada em fazer monólogos sobre como se sente, não tem crises de ciúme e gosta de transar não terá problema nenhum. Nós dois poderíamos voar em paz.

Ah, que tola.

Volta e meia me percebia enrolada com o cara que vivia reclamando sobre como todos os relacionamentos prévios dele eram um saco porque as namoradas discutiam relação toda hora, e sentiam muito ciúme, e pediam muito carinho, e o sexo às vezes rareava, e “que louca era minha ex colocou meu baixo sob o chuveiro no meio de uma briga” e “que ciumenta era minha ex que um dia me deu um tapa porque eu estava conversando com outra” e “que neurótica era minha ex que um dia levou o aspirador de pó da casa dela para aspirar meu apartamento porque ela achava muito sujo” e “que chata era minha ex porque ficava insistindo para que namorássemos toda hora”.

Eu pensava, nossa, então vai dar tudo certo. Eu fujo de discussões de relação que podem chegar perto de um baixo sob o chuveiro, trato de esconder bem o meu ciúme porque filme europeu demais na adolescência me fez achar uma atitude despreocupada meio sexy (não que isso seja bom), jamais limparia a casa de um homem porque já acho um saco limpar a minha, e francamente não sou eu quem vai insistir para dar um nome para seja lá o que for que está acontecendo aqui porque enquanto tiver sexo bom e conversa interessante pra mim tá legal.

Só que não dava tudo certo. Logo desandava e eu notava uma cobrança, uma demanda, um azedume. E o homem que dizia se querer livre de discussões de relação, que dizia que detestava mulher ciumenta, que dizia querer um relacionamento leve começava a iniciar discussões de relação, tentar provocar crises de ciúme e a sobrecarregar a leveza do relacionamento baseado em sexo e bate papo com acusações, carências, vez que outra um ciúme recalcado, uma cobrança de cuidado disfarçada sob algumas camadas de passivo agressividade e punição.

Ué.

Demorou muito tempo para eu entender que as atitudes que eles diziam não gostar eram exatamente as que eles esperavam das mulheres. Um escândalo, vez que outra culminando com objetos quebrados, um choro descontrolado, o desespero porque ele saiu com amigos e não disse aonde ia, a cobrança para que ele mantivesse a casa e as roupas limpas, não eram um problema, na verdade. Eram a solução. Faziam-nos parecer vulneráveis diante deles. Faziam com que eles se sentissem seguros. ISSO É AMOR.

Aí eu entendi que uma mulher que não faz tudo que os homens dizem que odeiam que elas fazem é uma megera. Ela é fria e sem coração. “Veja bem, meu bem, se você não atirou meu violão longe e não gritou porque eu cheguei tarde e não chorou porque eu não disse que te amava no tom certo e não insistiu para saber como eu me sentia mesmo quando eu dizia que não queria falar sobre isso é porque você não me ama o suficiente. Eu preciso da sua fragilidade, do seu descontrole emocional, para me sentir amado: faz eu me sentir desejado, faz com que eu me sinta cuidado, faz com que eu sinta que estou no controle – mas só demonstre as emoções certas, com uma carga de doçura e vulnerabilidade, a raiva eu só admito se for pra mostrar que me ama quebrando meu pandeiro, em outro contexto que diga respeito a você e não a mim eu não aceito porque vou te achar autocentrada e egoísta. Acima de tudo, garanta que minha casa esteja sempre limpa e eu não tenha que me preocupar em comprar roupas novas porque você irá tomar conta disso”.

No fundo os caras, vejam só, desejavam a tal jaula do casamento. É uma jaula confortável, e acolhedora e aconchegante, com comida quentinha sobre a mesa e uma psicóloga em tempo integral disponível para fazê-los desabafar, ainda que aparentemente a contragosto. Com intensidade emocional eventual para trazer movimento e obrigá-los a comprar um baixo novo pois afinal aquele que foi enfiado debaixo do chuveiro já não dava mais pro gasto.

E lá estava eu, iludida com a promessa de que teria um “lance leve” sem entender o motivo daquele drama todo se eu cobrava pouco e só queria me divertir.

A minha surpresa foi descobrir que na narrativa do amor, não era esperado que eu fosse a carcereira, e sim a encarceirada.

Somos nós que temos que investigar-lhes os sentimentos e explicar-lhes o que eles sentem, e descobrir quais projetos fazem os olhos deles brilharem e incentivá-los a serem bem sucedidos enquanto nós nos exaurimos entre sermos boas profissionais e gostosas e mantermos a geladeira cheia e o ego dele inflado com nossas manifestações de insegurança porque afinal aquele homem lindo e maravilhoso vai nos deixar pela estagiária mais jovem e tudo isso enquanto garantimos que a casa esteja bem limpinha (e veja, ele não se importa com a arrumação da casa, você mulher que faz questão disso que dê um jeito, mas experimenta descuidar da limpeza por uma semana pra ver se ele não fica completamente perdido).

Uma das armadilhas do patriarcado é nos trancar em uma cadeia e nos convencer que somos nós que seguramos a chave.

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