O corpo abstrato na obra de Monica Piloni

O corpo é uma prisão de carne que limita os anseios da mente – ao menos para quem, como eu, tende a ver o próprio self como algo descolado da matéria. Há quem consiga – de modo bastante saudável – SER o próprio corpo, sem dissociá-lo de si mesmo. Eu, contudo, sempre senti que ESTAVA DENTRO do meu corpo, tal qual um manequim de um episódio da série Além da Imaginação (Twilight Zone, exibida entre 1959 e 1964) que só podia ganhar vida e perambular pela cidade quando ninguém estava olhando.

Só que, ao mesmo tempo que o corpo me contém, ele é responsável por sensações e experiências bem terrenas, algumas das quais muito boas, outras, bem nojentas (e há as que sejam boas e nojentas ao mesmo tempo). Habitar um corpo sempre me trouxe conforto e desconforto, atração e repulsa, possibilidades e limitações.

leitora
A Leitora, 2019

Por isso, quando conheci as obras da escultora Monica Piloni me senti traduzida. Corpos realistas desconjuntados, multiplicados, partidos em pedacinhos, transformados em figuras abstratas, livres e contidos em si mesmos. O bizarro das composições formadas por pernas, braços, cabeças, torsos, bundas e vaginas nuas lembram um pouco o cenário de um filme de terror. Mas a anatomia perfeita das peças e a simetria com que estão dispostas faz com que desconforto e conforto convivam dentro de quem olha. Se o corpo decepado assusta, a harmonia com que as peças repousam atrai o olhar.

A curitibana radicada em São Paulo há 15 anos logo se tornou uma de minhas artistas contemporâneas favoritas. Suas peças ao mesmo tempo realistas e abstratas, bizarras e bonitas, conversam não só com a minha própria experiência corpórea, como também com o trabalho de outras artistas atuais que estetizam o esquisito, o nojento, e o estranho.

Entre elas, a israelense que trabalha com cerâmica Ronit Baranga, e a australiana Patricia Piccinini, ambas escultoras que, tal qual Monica, se esmeram em realizar um trabalho que, além de expressivo, seja tecnicamente próximo à perfeição. Não pude deixar de associar também ao trabalho da pintora brasileira Juliana Bernardino, que também expõe o incômodo existencial protagonizado por mulheres.

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Quando nos encontramos, no começo de Dezembro em seu atelier na Barra Funda, a escultora disse que reconheceu nos meus quadrinhos um pouco da própria obra: os autorretratos nus, o corpo como um meio de expressão. A nudez não como uma arma de sedução, mas como uma forma de existir de forma verdadeira. Nossa intenção é desnudar nossos universos particulares, sem a intenção de servir ao deleite masculino, mas sem se preocupar em negar a possibilidade do erotismo.

Na conversa, transmitida originalmente ao vivo no meu , falamos de técnicas, processo criativo e também de como é para mulheres produzirem arte hoje em dia.

Assista no vídeo abaixo:

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