Da arte masculina de esperar toda a disponibilidade a partir de um ELOGIO

É curiosa a relação do homem heterossexual com o ELOGIO, quando direcionado a uma mulher.

Não importa o quão realizada seja uma mulher frente a um homem minúsculo, o diminuto ser dotado de piroca pensa que as pernas da mulher em questão – ou ao menos um sorriso – irão se abrir automaticamente após ele expressar uma aprovação mixuruca a respeito dela: seja sobre sua aparência física ou seu trabalho.

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“uh, você jura que eu sei tocar?” – The Musician, Tamara de Lempicka (1929)

Mesmo que várias pessoas reconheçam o talento (ou a beleza, que seja) da mulher e que ela mesma esteja muito segura de seus atributos, o homem heterossexual médio tende a pensar que o elogio dele será um divisor de águas na vida dela – pois é sabido que nós mulheres somos esses seres incompletos, suscetíveis, ansiando pela aprovação de um macho.

Não que nos bajular seja apenas uma técnica para nos levar pra cama, também serve para que concedamos ao falo a atenção que ele acha que merece, para que o brindemos com olhinhos brilhantes, cheios de gratidão porque um homem reconheceu nosso talento ou nossa beleza..Porque nosso talento e nossa beleza só têm validade a partir do momento em que um homem os reconhece como tais – ainda mais tendo em vista que somos criadas em uma sociedade que desde cedo nos convence que somos bem pouco talentosas e bem pouco belas.

Eles gostam de pensar que estão no controle da nossa autoestima.

 

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“Então minha roupa é feia, é?” – Protrait de Mrs. Bush, Tamara de Lempicka, 1929

Tanto que, diante da ineficácia do elogio, partem para a técnica oposta: a ofensa. Uma das estratégias dos manuais de paquera consiste em abalar a segurança do “alvo” com comentários levemente negativos de modo a fazer com que a mulher desça do salto e passe, desesperadoramente, a buscar a aprovação do macho que não a valorizou.

A frustração do homem heterossexual quando o elogio ou a ofensa batem num muro é risível. Quando do outro lado os olhos não brilham, um sorriso não se abre ou uma testa não se franze, quando a mulher pouco se impressiona com o aplauso  ou com o escárnio (seja por pensar que não os merece, seja porque já recebeu loas e vaias mais significativas antes, seja porque aplicou botox há duas semanas e está temporariamente inexpressiva), as reações são infantis.

“Como pode, a mulher, esse ser tão vulnerável, influenciável, tão desejoso de atenção (a projeção é o esporte favorito dos homens) não se render diante da minha condescendente gentileza? Deve pois, estar fora de si. Deve pensar que é melhor do que é. Está segura demais, essa mulher.” E tal qual uma criança de 3 anos fazendo birra porque lhe tiraram o brinquedo, o homem elogioso esperneia, revelando que, no fundo, o que ele esperava a partir do elogio não era expressar adimiração; que a ofensa não significava desprezo. Era tudo uma técnica bem pouco refinada para conseguir aquilo que eles pensam que temos a obrigação de lhes prover: DISPONIBILIDADE.

Mas deixemos que chorem. Uma criança precisa de alguns traumas para crescer, não é mesmo.

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