Mulheres na arte: não se trata apenas de talento – uma entrevista com a fotógrafa Carla van de Puttelaar

Fotografar é pintar com luz, para Carla van de Puttelaar – não à toa, seus retratos parecem óleo sobre tela. A fotógrafa holandesa usa somente pinceladas de luz natural, com o auxílio de um rebatedor para capturar a beleza de seus temas favoritos: nus femininos, flores, e, mais recentemente, mulheres do mundo da arte.

Em 2017, ela decidiu que mulheres que trabalham nessa área precisam ser vistas e que suas histórias precisam ser contadas e começou o projeto Artfully Dressed: Women in the Art World. Carla já reuniu mais de 400 retratos e entrevistas, e lançará um livro em breve com uma coletânea do seu trabalho.

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Carla Van de Puttelaar, em autorretrato para seu projeto Artfully Dressed: Women in the Art World.

Carla me recebeu para um bate papo sobre seu projeto – conversamos sobre por que, afinal, há tão poucas mulheres célebres na arte e o que pode ser feito para mudar isso. Nos encontramos em seu estúdio, localizado no bairro Czaar Peterbuurt, em Amsterdã, um canto da região central da cidade que reúne vários artistas e permanece pouco explorado por turistas.

O meu objetivo era ouvir da fotógrafa e pesquisadora o que ela pensava sobre a visibilidade das mulheres no meio artístico, um tema que me provoca incômodo. Por que, afinal, somente nossos corpos (muitas vezes nus), e não nossas obras e criações estão expostas nos grandes museus? Por que os meus artistas favoritos – Diego Velázquez, Francisco de Goya, Hieronymus Bosch, Peter Paul Rubens, William-Adolphe Bouguereau, Pablo Picasso, Joan Miró, Salvador Dalí, Vincent van Gogh, Alberto Burri, Tolousse-Lautrec, Degas, Jackson Pollock, Roy Lichenstein, e isso para ficar apenas na pintura, têm em comum o fato de serem homens? Será que eles são mais talentosos ou será que o talento de Artemisia Gentileschi, Joan Mitchell e Natalia Goncharova nunca chegou até mim?

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Suzana e os Anciões, de Artemisia Gentileschi

Depois de aprender um pouco com Carla, fui surpreendida pelo seu pedido: “posso te fotografar para o projeto?” Arregalei o olho. Afinal, essa cartunista capturada pelas mesmas lentes que retrataram Maria Jane Balshaw, a diretora dos museus de arte e galerias da Tate, no Reino Unido? Mas logo lembrei que essa “mistura” é exatamente uma de suas metas – unir, no mesmo projeto, artistas e profissionais da arte de diferentes lugares e em diversos estágios. O meu retrato, iluminado pela luz suave de Amsterdã – que, mesmo no verão, tinha o céu coberto de nuvens quase o tempo todo, lembra muito uma pintura clássica. Se vou mostrá-lo um dia? Quem sabe. Por enquanto, alguns trechos da conversa que tive com Carla:

Estarmorta: Por que você começou a fotografar mulheres do mundo da arte?

Carla van de Puttelaar: Comecei na primavera de 2017, antes que o Me Too (movimento que chamou atenção para casos de assédio na indústria cinematográfica) ganhasse força. Noto que a maioria das estudantes de artes são mulheres, que há muitas artistas mulheres e profissionais que trabalham no meio artístico, mas que a maioria dos artistas conhecidos e visíveis são homens. Percebi que era difícil descobrir coisas sobre mulheres artistas e que trabalhavam no meio da arte, e nem falo apenas do trabalho, mas também da história delas, ao passo que sobre homens se sabe tanto. Então decidi fotografar essas mulheres e contar sobre o trabalho delas para aumentar a visibilidade dessas profissionais.

EM: E quais são seus critérios de escolha e objetivos com esse projeto?

CP: Tento tornar o conjunto o mais diverso possível, então eu fotografo desde mulheres que já ocupam altos cargos, como a diretora da National Gallery de Washington Kaywin Feldman, até artistas que estão começando agora. Acredito que colocando mulheres em diferentes estágios no mesmo grupo consigo mostrar que tem pessoas brilhantes começando agora e outras que já trabalharam muito e chegaram no topo, o que é inspirador para outras mulheres. Além disso, crio conexões, uno mulheres que querem ser mentoras com outras que querem aprender.

EM: Sempre que eu leio sobre a vida de grandes mestres da pintura, percebo que eles estudavam desde cedo e tinham muitos contatos, não se tratava apenas de talento…

CP: Você acha que algum dia vai se tratar apenas de talento? Mulheres tinham opções muito mais restritas, elas tinham que ter filhos, cuidar deles e da casa. Não eram educadas ou treinadas, não conseguiam desenvolver suas habilidades. Na Holanda, no século XVII, até que tínhamos várias mulheres atuando na área de negócios, mas poucas recebiam treinamento artístico. Algumas, contudo, conseguiram visibilidade e foram celebradas à época, como as pintoras Rachel Ruysch e Clara Peeters.

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Still Life with Flowers, Rachel Ruysch

 

EM: Durante muito tempo não foi permitido que mulheres pintassem nus, um tema muito comum na arte. Como isso afetou o trabalho de pintoras ao longo da história?

CP: Pintar nus sempre foi difícil. Até o século XVII homens muitas vezes eram os modelos de nus femininos. E, sim, mesmo no século XIX, as mulheres não podiam pintar nus. Mas isso era apenas uma pequena questão perto das outras coisas que elas não podiam fazer. Elas não podiam estudar arte. E educação artística, assim como construir uma rede de contatos, trabalhar em um ambiente que as inspirasse, receber encorajamento e ter espaço para competição é importante para o desenvolvimento de um artista.
EM: E você acredita que é possível que mulheres alcancem o mesmo grau de visibilidade dos homens na arte?

CP: Na Holanda, as coisas estão mudando muito rápido e sou otimista com relação a isso, mas eu não saberia dizer se isso é um fenômeno global, não dá para dizer que as oportunidades para as mulheres são iguais em todos os lugares do mundo. Não tenho como prever o futuro, mas essa instabilidade política pela qual estamos passando é algo para se levar em consideração quando falamos de direitos das mulheres. Creio que temos que fazer nossa parte educando nossas filhas – e também nossos filhos – para serem pensadores críticos, refletirem, pensarem e a não simplesmente aceitarem as coisas do jeito que são.

EM: E qual é a sua história como artista?

CP: Eu pintava muito quando era criança, e sabia desde cedo que iria estudar Artes. Entrei na universidade pensando em me tornar pintora, mas acabei saindo como fotógrafa. Penso em mim como alguém que pinta com a luz. A pintura clássica dos séculos XV, XVI e XVII têm muito impacto no meu trabalho, e como artista contemporânea, busco nela elementos para criar a minha própria linguagem. Uso apenas luz natural nos meus retratos porque sua beleza é insuperável: eu consigo ver quando a mágica está lá ou não. Se a luz não está boa, é horrível fotografar.

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Carla van de Puttelaar, Rembrandt Series, 2016, Archival Pigment Print

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