Transtorno mental não se cura só com amor, positividade, suco verde e yoga

Volta e meia no mundo caótico da internet eu me deparo com alguma receita mágica para vencer doenças mentais como ansiedade, depressão, compulsões e outros transtornos sem precisar de remédios. Afinal, a psiquiatria medicaliza todos os comportamentos e a indústria farmacêutica lucra com nossa desgraça.

A melhor maneira de se enfrentar essas angústias, dizem esses influenciadores, é uma mistura de autoestima (como se isso nascesse em árvore), algum esporte good vibes tipo yoga, meditação, sucos naturais, alimentação saudável, positividade. Tudo, menos dar dinheiro para as farmacêuticas. Não raro esses arautos das boas vibrações estão, olha só, vendendo alguma coisa.

Poucas coisas me parecem tão tóxicas. E não é nem que eu não ache as coisas supracitadas importantes para a minha saúde mental: nado, me penduro em barras para ficar mais forte, tomo muito suco verde, cultivo relações saudáveis e só não medito porque não tenho muito saco, mas sei dos benefícios da prática.

Mas olha aqui: transtorno mental é um assunto muito sério e quem diz que “basta cultivar hábitos saudáveis, não precisa da medicina ocidental” está colocando uma carga horrorosa em cima de um doente que, muitas vezes, sequer vScreenshot_20190405-101154_2ai conseguir adotar tais hábitos adoráveis porque não consegue sair da cama, ou porque está num meio de um surto de mania e não consegue frear seus pensamentos.

Cada vez que publico quadrinhos ou stories com o tema TRANSTORNO MENTAL no meu perfil do Instagram, recebo mensagens com desabafos de gente que se identifica, pedidos de ajuda, e relatos mais positivos de pessoas que já passaram por esse tipo de problema e aprenderam a lidar com eles.

Para os que pedem ajuda meu conselho é sempre o mesmo: procurem ajuda de profissionais de saúde, mais especificamente de psiquiatras e psicólogos. Se não tiverem grana, procurem o CAPS de sua cidade. Os que superaram o problema parecem ter algo em comum: procuraram ajuIMG_Femme_20190301_201602_processedda profissional – nem todos precisaram tomar remédios, mas todos fizeram terapia.

Ninguém se curou com suco, yoga, mindfullness ou práticas artísticas. Todas essas coisas, assim como o apoio de amigos e familiares empáticos que ofereçam compreensão e um ombro pra chorar são importantes no tratamento. Mas a ajuda da medicina ocidental para essas pessoas que – olha só – estão inseridas em um contexto ocidental, foi 100% importante.

– um GATILHO de temas como depressão e suicídio daqui em diante –

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Vale aqui contar um pouco da minha própria história para ilustrar bem o que estou dizendo. Eu nunca gostei muito de estar viva. Lembro-me de pensar “o que eu estou fazendo aqui?” desde que eu tinha sete ou oito anos. Era muita inadequação, impaciência, sentimento de vazio, por uma série de questões, desde a genética (minha família é toda meio macambúzia) até acontecimentos pessoais e um contexto familiar não muito bom. Além disso, eu não conseguia me comunicar com crianças da minha idade, demorei um bom tempo para conseguir ter amigos.

Apesar disso, eu sempre gostei muito de me divertir. E sempre busquei no meio externo formas de tentar escapar do meu vazio. Minha vida era essa gangorra: busca de experiências extremas, estímulos intensos, para não ter que olhar pra dentro e contemplar minha miséria existencial. E, volta e meia, aquela sensação: por que diabos eu fui nascer?

Teve um momento, contudo, que isso se tornou insuportável. Por causa de um trabalho que eu detestava, comecei a ter minhas primeiras crises de ansiedade, aos 22 anos. A sensação era de que eu ia enlouquecer, que estava presa em uma situação sem perspectiva alguma de melhora e não havia saída. A isso se somou uma depressão. Foi a primeira vez que comecei a tomar antidepressivos, receitados por uma médica clínica. Na época, eu não tinha dinheiro para pagar por terapia e nem a orientação adequada para buscar isso na saúde pública.

O antidepressivo funcionou bem. Me tirou do fundo do poço e eu continuei minha busca por coisas que me distraíssem dos meus buracos negros. Volta e meia eu olhava pra dentro e não via nada além de um vácuo desesperado, mas eu seguia vivendo em busca de excessos que me divertissem – afinal, já que estamos condenados a existir, por que não curtir ao máximo?

Não me arrependo dos excessos. Foram ótimos e divertidíssimos – talvez eu volte a praticar alguns, com moderação. Mas cedo ou tarde, a hora de olhar para o abismo chega. E aí veio outra crise de ansiedade e depressão. Horas contemplando meu vazio, mas não daquele jeito estático dos budistas – mas sim de um jeito histriônico, exasperado. E era um vazio bem cheio de mágoas, frustrações, ressentimentos e desequilíbrios, na verdade. Cheio de pensamentos negativos, em espiral, que me torturavam e não saíam da minha cabeça.IMG_Femme_20190209_163431_processed

Pensamentos de que eu era um fracasso. De que eu não precisava ter nascido – por que a minha mãe não tomou um citotec? Planos mirabolantes do que eu faria se tivesse poderes especiais – e a frustração de lembrar que eu não tinha.


MAS EI! POR QUE VOCÊ NÃO MEDITA? YOGA? SUCO VERDE? PENSAMENTO POSITIVO? AMOR? BOAS VIBRAÇÕES? AUTOESTIMA?

Claramente, quem fala isso não tem ideia do que é um transtorno mental. Por mais que você saiba que seus pensamentos não fazem sentido, seus neurotransmissores não concordam com você. Não há nada que você possa fazer para que sua mente saia do atolamento em que entrou – a menos que você conte com ajuda da medicina.

Vocês não entendem o suicida? Pois bem, eu vou explicar o suicida.

Quando você está atolado em pensamentos aterradores sobre os quais você não tem nenhum controle, a dor é imensa. O sofrimento é muito grande. A morte parece sim ser a única forma de parar com isso. Nunca quis me matar, mas eu já quis que meu avião caísse muitas vezes, nas épocas em que estive mal. E fico feliz por morar no segundo andar – nunca tive o impulso de me jogar.

Boa notícia? Depois de alguns meses de tratamento com um bom psiquiatra e uma ótima terapeuta, eu fiquei bem. Os sentimentos de vazio são cada vez mais raros. Cada vez menos questiono a minha existência. E continuo me divertindo bastante – de forma mais equilibrada e um pouco menos inconsequente.

O perfil do instragram fez parte do processo – comecei a desenhar em setembro de 2017 porque precisava de alguma atividade que me tirasse um pouco da minha cabeça (um tanto quanto hiperativa).

Desenhar ajudou muito. Nadar ajuda bastante. O suco verde eu tenho certeza que deve servir para alguma coisa. As minhas amizades foram essenciais. Tenho certeza que meditar seria bom, uma hora quem sabe.
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Mas meu psiquiatra, minha terapeuta e os remédios que venho tomando desde então salvaram minha vida.

Muita gente tem medo dos efeitos colaterais dos remédios. De fato, alguns medicamentos podem gerar apatia, queda de libido ou embotamento afetivo depois de algum tempo. Mas um bom psiquiatra saberá avaliar qual é a hora de parar ou trocar de medicação.

Não me sinto especialmente corajosa por contar a história ou uma heroína por ter “vencido” a depressão. Até porque eu não sei se venci ou se encontrei uma maneira de domar a fera. A questão é que eu não romantizo a DOENÇA: ela se parece muito com uma herpes existencial que vai tomar conta quando você estiver desajustado. E ela é UMA DOENÇA. Assim como a ansiedade, a bipolaridade, o transtorno obsessivo compulsivo, e vários outras DOENÇAS.

Muito cuidado com os discursos “good vibes” “anticapitalistas” que vemos na internet. Eles podem esconder só um charlatão querendo lucrar e se promover em cima da sua fragilidade.

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4 thoughts on “Transtorno mental não se cura só com amor, positividade, suco verde e yoga

  1. Obrigada por esse texto, resumiu tudo o que eu penso. É complicado se deparar com comentários como esse quando não se consegue nem sair da cama. A gente sabe o que seria “bom” fazer, a gente só não consegue.

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  2. Eu amei demais esse texto.
    Só depois de 2 anos de tratamento ~ocidental~ que consigo pensar em tomar suco verde, melhorar a alimentação e ser positiva. HAHA

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  3. nossa, sua experiência é tão parecida com a minha que acho que somos a mesma pessoa em corpos distantes. Obrigada por compartilhar seus desenhos. São fabulosos. Já tomei remédio, já estive na psicoterapia, já estive só vagando mesmo e até suco verde tb constou na minha dieta. Mas o importante é ter sempre o acompanhamento do profissional de saúde que vai auxiliar no processo de “domar” a doença e a manter sob vigilância. Valeozão por tudo. Sigo dando RT no twitter até teus desenhos chegarem ao Planalto.

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