Como convenceram a prisioneira de que ela tem a chave da cadeia

Boa parte da minha vida eu fiquei escutando coisas como “a mulher transa quando quer, o homem quando pode; o homem casa quando quer, a mulher quando pode” e piadinhas em que o casamento era sempre uma prisão para o homem: não tinha mais jeito, ele foi enjaulado por uma mulher, ele teve que sucumbir às pressões para se casar e abrir mão da sua divertida vida de solteiro. Isso sem falar nos homens casados que reclamavam da “chatice” das suas esposas, sempre dizendo “amor vamos passar as férias em Paris e amor não vamos trocar de carro esse ano e amor tira os sapatos antes de entrar em casa e amor escuta aqui o que eu estou sentindo e me diz o que está se passando pela tua cabeça e amor que saco eu tenho que fazer tudo nessa casa e amor não estou a fim de transar hoje e amor quem é essa fulana que te ligou”. A mulher incomoda, a mulher custa caro, a mulher sufoca.

Compreendi que casamento era mesmo uma jaula, nunca entendi porque as pessoas se submetiam a isso, porque elas entravam voluntariamente em uma relação que implicava a mulher se tornar uma carcereira chata e o homem se tornar um pássaro com asas cortadas.

Então eu virei uma mulher que não queria casar. Minhas motivações para isso tinham a ver com eu não querer ser uma chata, mas não só. Queria ser bem sucedida no trabalho, viajar o mundo, viver aventuras, ter várias experiências, queria existir sem ter que me preocupar em ver se a jaula estava bem fechada e as asas bem aparadas para o meu amor não voar pra longe. Mas eu achei sim que minha vida afetiva seria fácil, ah, achei.

Afinal, se homens acham o casamento um saco então uma mulher que paga as próprias contas, não se mete nos carros que ele compra com o dinheiro dele, não fica perguntando toda hora o que ele pensa, não está muito interessada em fazer monólogos sobre como se sente, não tem crises de ciúme e gosta de transar não terá problema nenhum. Nós dois poderíamos voar em paz.

Ah, que tola.

Volta e meia me percebia enrolada com o cara que vivia reclamando sobre como todos os relacionamentos prévios dele eram um saco porque as namoradas discutiam relação toda hora, e sentiam muito ciúme, e pediam muito carinho, e o sexo às vezes rareava, e “que louca era minha ex colocou meu baixo sob o chuveiro no meio de uma briga” e “que ciumenta era minha ex que um dia me deu um tapa porque eu estava conversando com outra” e “que neurótica era minha ex que um dia levou o aspirador de pó da casa dela para aspirar meu apartamento porque ela achava muito sujo” e “que chata era minha ex porque ficava insistindo para que namorássemos toda hora”.

Eu pensava, nossa, então vai dar tudo certo. Eu fujo de discussões de relação que podem chegar perto de um baixo sob o chuveiro, trato de esconder bem o meu ciúme porque filme europeu demais na adolescência me fez achar uma atitude despreocupada meio sexy (não que isso seja bom), jamais limparia a casa de um homem porque já acho um saco limpar a minha, e francamente não sou eu quem vai insistir para dar um nome para seja lá o que for que está acontecendo aqui porque enquanto tiver sexo bom e conversa interessante pra mim tá legal.

Só que não dava tudo certo. Logo desandava e eu notava uma cobrança, uma demanda, um azedume. E o homem que dizia se querer livre de discussões de relação, que dizia que detestava mulher ciumenta, que dizia querer um relacionamento leve começava a iniciar discussões de relação, tentar provocar crises de ciúme e a sobrecarregar a leveza do relacionamento baseado em sexo e bate papo com acusações, carências, vez que outra um ciúme recalcado, uma cobrança de cuidado disfarçada sob algumas camadas de passivo agressividade e punição.

Ué.

Demorou muito tempo para eu entender que as atitudes que eles diziam não gostar eram exatamente as que eles esperavam das mulheres. Um escândalo, vez que outra culminando com objetos quebrados, um choro descontrolado, o desespero porque ele saiu com amigos e não disse aonde ia, a cobrança para que ele mantivesse a casa e as roupas limpas, não eram um problema, na verdade. Eram a solução. Faziam-nos parecer vulneráveis diante deles. Faziam com que eles se sentissem seguros. ISSO É AMOR.

Aí eu entendi que uma mulher que não faz tudo que os homens dizem que odeiam que elas fazem é uma megera. Ela é fria e sem coração. “Veja bem, meu bem, se você não atirou meu violão longe e não gritou porque eu cheguei tarde e não chorou porque eu não disse que te amava no tom certo e não insistiu para saber como eu me sentia mesmo quando eu dizia que não queria falar sobre isso é porque você não me ama o suficiente. Eu preciso da sua fragilidade, do seu descontrole emocional, para me sentir amado: faz eu me sentir desejado, faz com que eu me sinta cuidado, faz com que eu sinta que estou no controle – mas só demonstre as emoções certas, com uma carga de doçura e vulnerabilidade, a raiva eu só admito se for pra mostrar que me ama quebrando meu pandeiro, em outro contexto que diga respeito a você e não a mim eu não aceito porque vou te achar autocentrada e egoísta. Acima de tudo, garanta que minha casa esteja sempre limpa e eu não tenha que me preocupar em comprar roupas novas porque você irá tomar conta disso”.

No fundo os caras, vejam só, desejavam a tal jaula do casamento. É uma jaula confortável, e acolhedora e aconchegante, com comida quentinha sobre a mesa e uma psicóloga em tempo integral disponível para fazê-los desabafar, ainda que aparentemente a contragosto. Com intensidade emocional eventual para trazer movimento e obrigá-los a comprar um baixo novo pois afinal aquele que foi enfiado debaixo do chuveiro já não dava mais pro gasto.

E lá estava eu, iludida com a promessa de que teria um “lance leve” sem entender o motivo daquele drama todo se eu cobrava pouco e só queria me divertir.

A minha surpresa foi descobrir que na narrativa do amor, não era esperado que eu fosse a carcereira, e sim a encarceirada.

Somos nós que temos que investigar-lhes os sentimentos e explicar-lhes o que eles sentem, e descobrir quais projetos fazem os olhos deles brilharem e incentivá-los a serem bem sucedidos enquanto nós nos exaurimos entre sermos boas profissionais e gostosas e mantermos a geladeira cheia e o ego dele inflado com nossas manifestações de insegurança porque afinal aquele homem lindo e maravilhoso vai nos deixar pela estagiária mais jovem e tudo isso enquanto garantimos que a casa esteja bem limpinha (e veja, ele não se importa com a arrumação da casa, você mulher que faz questão disso que dê um jeito, mas experimenta descuidar da limpeza por uma semana pra ver se ele não fica completamente perdido).

Uma das armadilhas do patriarcado é nos trancar em uma cadeia e nos convencer que somos nós que seguramos a chave.

O corpo abstrato na obra de Monica Piloni

O corpo é uma prisão de carne que limita os anseios da mente – ao menos para quem, como eu, tende a ver o próprio self como algo descolado da matéria. Há quem consiga – de modo bastante saudável – SER o próprio corpo, sem dissociá-lo de si mesmo. Eu, contudo, sempre senti que ESTAVA DENTRO do meu corpo, tal qual um manequim de um episódio da série Além da Imaginação (Twilight Zone, exibida entre 1959 e 1964) que só podia ganhar vida e perambular pela cidade quando ninguém estava olhando.

Só que, ao mesmo tempo que o corpo me contém, ele é responsável por sensações e experiências bem terrenas, algumas das quais muito boas, outras, bem nojentas (e há as que sejam boas e nojentas ao mesmo tempo). Habitar um corpo sempre me trouxe conforto e desconforto, atração e repulsa, possibilidades e limitações.

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A Leitora, 2019

Por isso, quando conheci as obras da escultora Monica Piloni me senti traduzida. Corpos realistas desconjuntados, multiplicados, partidos em pedacinhos, transformados em figuras abstratas, livres e contidos em si mesmos. O bizarro das composições formadas por pernas, braços, cabeças, torsos, bundas e vaginas nuas lembram um pouco o cenário de um filme de terror. Mas a anatomia perfeita das peças e a simetria com que estão dispostas faz com que desconforto e conforto convivam dentro de quem olha. Se o corpo decepado assusta, a harmonia com que as peças repousam atrai o olhar.

A curitibana radicada em São Paulo há 15 anos logo se tornou uma de minhas artistas contemporâneas favoritas. Suas peças ao mesmo tempo realistas e abstratas, bizarras e bonitas, conversam não só com a minha própria experiência corpórea, como também com o trabalho de outras artistas atuais que estetizam o esquisito, o nojento, e o estranho.

Entre elas, a israelense que trabalha com cerâmica Ronit Baranga, e a australiana Patricia Piccinini, ambas escultoras que, tal qual Monica, se esmeram em realizar um trabalho que, além de expressivo, seja tecnicamente próximo à perfeição. Não pude deixar de associar também ao trabalho da pintora brasileira Juliana Bernardino, que também expõe o incômodo existencial protagonizado por mulheres.

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Quando nos encontramos, no começo de Dezembro em seu atelier na Barra Funda, a escultora disse que reconheceu nos meus quadrinhos um pouco da própria obra: os autorretratos nus, o corpo como um meio de expressão. A nudez não como uma arma de sedução, mas como uma forma de existir de forma verdadeira. Nossa intenção é desnudar nossos universos particulares, sem a intenção de servir ao deleite masculino, mas sem se preocupar em negar a possibilidade do erotismo.

Na conversa, transmitida originalmente ao vivo no meu , falamos de técnicas, processo criativo e também de como é para mulheres produzirem arte hoje em dia.

Assista no vídeo abaixo:

Então eu não sou um ser humano, eu sou um homem hétero?

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Durante muitos e muitos séculos, quase todas as formas de arte eram feitas por e para Gustavos. A literatura, a pintura, o teatro. A comédia e a tragédia.
.
Aparecia uma Ana talentosa vez que outra – não eram muitas. Os Gustavos gostam de pensar que Anas não escreviam boas peças de teatro e não pintavam bons quadros porque homens têm um talento inato pra isso tudo. É a testosterona, sabe?
.
Ignoravam – ou apenas fingiam não saber – que muitas Anas não tinham condições de fazer arte porque lhes era negado estudo, e quando lhes era fornecido estudo lhes era negado tempo (consumido por tarefas de cuidado) e quando venciam esses dois obstáculos lhes era negada visibilidade.
.
Com isso, Gustavo acostumou-se a ver-se como o ser humano basilar. Nunca se viu como subcategoria de ser humano. Ao mesmo tempo, sempre se achou um indivíduo especial – seus processos mentais eram tão únicos!
.
Quando Gustavo fazia humor utilizando-se de generalizações e estereótipos (ferramentas que artistas usam desde sempre) negativos contra negros, mulheres ou pobres, Gustavo não estava sendo machista, nem racista, nem ressentido, nem generalizando. ERA SÓ UMA PIADA, PÔ, VOCÊS TAMBÉM, TUDO SE OFENDEM.
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Mas, um dia, Gustavo virou o alvo da piada. Seu processo mental que considerava tão único, olha só, era bem fácil de identificar e desenhar. Até uma mulher, um negro e um pobre conseguem!
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Gustavo percebeu que ele era também um estereótipo.
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Fez um escândalo.
Poxa.
Vocês não têm empatia. Estão generalizando. Fazendo humor baseado em estereótipo (sim, pq o humorista ele tem que ser um psicólogo que vai na psiquê de cada indivíduo específico). São rancorosos. Amargurados. Sexistas.
.
POXA GUSTAVOS, VCS TB, SE OFENDEM COM QUALQUER COISA. 🤷‍♀️🤷‍♀️🤷‍♀️🤷‍♀️
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Mas se vc quer uma dica, Gustavo, se te incomoda a generalização do humor e você anseia tanto para que um outro te enxergue como um indivíduo complexo, por que em vez de esperar essa compreensão de uma página de quadrinhos, de um comediante de stand up, por que você não paga UM PSICÓLOGO, Gustavo????
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#comics #drawing #hq #quadrinhos #humor #cartoon #tirinhas #feminismo

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Durante muitos e muitos séculos, quase todas as formas de arte eram feitas por e para Gustavos. A literatura, a pintura, o teatro. A comédia e a tragédia. . Aparecia uma Ana talentosa vez que outra – não eram muitas. Os Gustavos gostam de pensar que Anas não escreviam boas peças de teatro e não pintavam bons quadros porque homens têm um talento inato pra isso tudo. É a testosterona, sabe? . Ignoravam – ou apenas fingiam não saber – que muitas Anas não tinham condições de fazer arte porque lhes era negado estudo, e quando lhes era fornecido estudo lhes era negado tempo (consumido por tarefas de cuidado) e quando venciam esses dois obstáculos lhes era negada visibilidade. . Com isso, Gustavo acostumou-se a ver-se como o ser humano basilar. Nunca se viu como subcategoria de ser humano. Ao mesmo tempo, sempre se achou um indivíduo especial – seus processos mentais eram tão únicos! . Quando Gustavo fazia humor utilizando-se de generalizações e estereótipos (ferramentas que artistas usam desde sempre) negativos contra negros, mulheres ou pobres, Gustavo não estava sendo machista, nem racista, nem ressentido, nem generalizando. ERA SÓ UMA PIADA, PÔ, VOCÊS TAMBÉM, TUDO SE OFENDEM. . Mas, um dia, Gustavo virou o alvo da piada. Seu processo mental que considerava tão único, olha só, era bem fácil de identificar e desenhar. Até uma mulher, um negro e um pobre conseguem! . Gustavo percebeu que ele era também um estereótipo. . Fez um escândalo. Poxa. Vocês não têm empatia. Estão generalizando. Fazendo humor baseado em estereótipo (sim, pq o humorista ele tem que ser um psicólogo que vai na psiquê de cada indivíduo específico). São rancorosos. Amargurados. Sexistas. . POXA GUSTAVOS, VCS TB, SE OFENDEM COM QUALQUER COISA. 🤷‍♀️🤷‍♀️🤷‍♀️🤷‍♀️ . Mas se vc quer uma dica, Gustavo, se te incomoda a generalização do humor e você anseia tanto para que um outro te enxergue como um indivíduo complexo, por que em vez de esperar essa compreensão de uma página de quadrinhos, de um comediante de stand up, por que você não paga UM PSICÓLOGO, Gustavo???? . . #comics #drawing #hq #quadrinhos #humor #cartoon #tirinhas #feminismo

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Da arte masculina de esperar toda a disponibilidade a partir de um ELOGIO

É curiosa a relação do homem heterossexual com o ELOGIO, quando direcionado a uma mulher.

Não importa o quão realizada seja uma mulher frente a um homem minúsculo, o diminuto ser dotado de piroca pensa que as pernas da mulher em questão – ou ao menos um sorriso – irão se abrir automaticamente após ele expressar uma aprovação mixuruca a respeito dela: seja sobre sua aparência física ou seu trabalho.

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“uh, você jura que eu sei tocar?” – The Musician, Tamara de Lempicka (1929)

Mesmo que várias pessoas reconheçam o talento (ou a beleza, que seja) da mulher e que ela mesma esteja muito segura de seus atributos, o homem heterossexual médio tende a pensar que o elogio dele será um divisor de águas na vida dela – pois é sabido que nós mulheres somos esses seres incompletos, suscetíveis, ansiando pela aprovação de um macho.

Não que nos bajular seja apenas uma técnica para nos levar pra cama, também serve para que concedamos ao falo a atenção que ele acha que merece, para que o brindemos com olhinhos brilhantes, cheios de gratidão porque um homem reconheceu nosso talento ou nossa beleza..Porque nosso talento e nossa beleza só têm validade a partir do momento em que um homem os reconhece como tais – ainda mais tendo em vista que somos criadas em uma sociedade que desde cedo nos convence que somos bem pouco talentosas e bem pouco belas.

Eles gostam de pensar que estão no controle da nossa autoestima.

 

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“Então minha roupa é feia, é?” – Protrait de Mrs. Bush, Tamara de Lempicka, 1929

Tanto que, diante da ineficácia do elogio, partem para a técnica oposta: a ofensa. Uma das estratégias dos manuais de paquera consiste em abalar a segurança do “alvo” com comentários levemente negativos de modo a fazer com que a mulher desça do salto e passe, desesperadoramente, a buscar a aprovação do macho que não a valorizou.

A frustração do homem heterossexual quando o elogio ou a ofensa batem num muro é risível. Quando do outro lado os olhos não brilham, um sorriso não se abre ou uma testa não se franze, quando a mulher pouco se impressiona com o aplauso  ou com o escárnio (seja por pensar que não os merece, seja porque já recebeu loas e vaias mais significativas antes, seja porque aplicou botox há duas semanas e está temporariamente inexpressiva), as reações são infantis.

“Como pode, a mulher, esse ser tão vulnerável, influenciável, tão desejoso de atenção (a projeção é o esporte favorito dos homens) não se render diante da minha condescendente gentileza? Deve pois, estar fora de si. Deve pensar que é melhor do que é. Está segura demais, essa mulher.” E tal qual uma criança de 3 anos fazendo birra porque lhe tiraram o brinquedo, o homem elogioso esperneia, revelando que, no fundo, o que ele esperava a partir do elogio não era expressar adimiração; que a ofensa não significava desprezo. Era tudo uma técnica bem pouco refinada para conseguir aquilo que eles pensam que temos a obrigação de lhes prover: DISPONIBILIDADE.

Mas deixemos que chorem. Uma criança precisa de alguns traumas para crescer, não é mesmo.

Mulheres na arte: não se trata apenas de talento – uma entrevista com a fotógrafa Carla van de Puttelaar

Fotografar é pintar com luz, para Carla van de Puttelaar – não à toa, seus retratos parecem óleo sobre tela. A fotógrafa holandesa usa somente pinceladas de luz natural, com o auxílio de um rebatedor para capturar a beleza de seus temas favoritos: nus femininos, flores, e, mais recentemente, mulheres do mundo da arte.

Em 2017, ela decidiu que mulheres que trabalham nessa área precisam ser vistas e que suas histórias precisam ser contadas e começou o projeto Artfully Dressed: Women in the Art World. Carla já reuniu mais de 400 retratos e entrevistas, e lançará um livro em breve com uma coletânea do seu trabalho.

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Carla Van de Puttelaar, em autorretrato para seu projeto Artfully Dressed: Women in the Art World.

Carla me recebeu para um bate papo sobre seu projeto – conversamos sobre por que, afinal, há tão poucas mulheres célebres na arte e o que pode ser feito para mudar isso. Nos encontramos em seu estúdio, localizado no bairro Czaar Peterbuurt, em Amsterdã, um canto da região central da cidade que reúne vários artistas e permanece pouco explorado por turistas.

O meu objetivo era ouvir da fotógrafa e pesquisadora o que ela pensava sobre a visibilidade das mulheres no meio artístico, um tema que me provoca incômodo. Por que, afinal, somente nossos corpos (muitas vezes nus), e não nossas obras e criações estão expostas nos grandes museus? Por que os meus artistas favoritos – Diego Velázquez, Francisco de Goya, Hieronymus Bosch, Peter Paul Rubens, William-Adolphe Bouguereau, Pablo Picasso, Joan Miró, Salvador Dalí, Vincent van Gogh, Alberto Burri, Tolousse-Lautrec, Degas, Jackson Pollock, Roy Lichenstein, e isso para ficar apenas na pintura, têm em comum o fato de serem homens? Será que eles são mais talentosos ou será que o talento de Artemisia Gentileschi, Joan Mitchell e Natalia Goncharova nunca chegou até mim?

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Suzana e os Anciões, de Artemisia Gentileschi

Depois de aprender um pouco com Carla, fui surpreendida pelo seu pedido: “posso te fotografar para o projeto?” Arregalei o olho. Afinal, essa cartunista capturada pelas mesmas lentes que retrataram Maria Jane Balshaw, a diretora dos museus de arte e galerias da Tate, no Reino Unido? Mas logo lembrei que essa “mistura” é exatamente uma de suas metas – unir, no mesmo projeto, artistas e profissionais da arte de diferentes lugares e em diversos estágios. O meu retrato, iluminado pela luz suave de Amsterdã – que, mesmo no verão, tinha o céu coberto de nuvens quase o tempo todo, lembra muito uma pintura clássica. Se vou mostrá-lo um dia? Quem sabe. Por enquanto, alguns trechos da conversa que tive com Carla:

Estarmorta: Por que você começou a fotografar mulheres do mundo da arte?

Carla van de Puttelaar: Comecei na primavera de 2017, antes que o Me Too (movimento que chamou atenção para casos de assédio na indústria cinematográfica) ganhasse força. Noto que a maioria das estudantes de artes são mulheres, que há muitas artistas mulheres e profissionais que trabalham no meio artístico, mas que a maioria dos artistas conhecidos e visíveis são homens. Percebi que era difícil descobrir coisas sobre mulheres artistas e que trabalhavam no meio da arte, e nem falo apenas do trabalho, mas também da história delas, ao passo que sobre homens se sabe tanto. Então decidi fotografar essas mulheres e contar sobre o trabalho delas para aumentar a visibilidade dessas profissionais.

EM: E quais são seus critérios de escolha e objetivos com esse projeto?

CP: Tento tornar o conjunto o mais diverso possível, então eu fotografo desde mulheres que já ocupam altos cargos, como a diretora da National Gallery de Washington Kaywin Feldman, até artistas que estão começando agora. Acredito que colocando mulheres em diferentes estágios no mesmo grupo consigo mostrar que tem pessoas brilhantes começando agora e outras que já trabalharam muito e chegaram no topo, o que é inspirador para outras mulheres. Além disso, crio conexões, uno mulheres que querem ser mentoras com outras que querem aprender.

EM: Sempre que eu leio sobre a vida de grandes mestres da pintura, percebo que eles estudavam desde cedo e tinham muitos contatos, não se tratava apenas de talento…

CP: Você acha que algum dia vai se tratar apenas de talento? Mulheres tinham opções muito mais restritas, elas tinham que ter filhos, cuidar deles e da casa. Não eram educadas ou treinadas, não conseguiam desenvolver suas habilidades. Na Holanda, no século XVII, até que tínhamos várias mulheres atuando na área de negócios, mas poucas recebiam treinamento artístico. Algumas, contudo, conseguiram visibilidade e foram celebradas à época, como as pintoras Rachel Ruysch e Clara Peeters.

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Still Life with Flowers, Rachel Ruysch

 

EM: Durante muito tempo não foi permitido que mulheres pintassem nus, um tema muito comum na arte. Como isso afetou o trabalho de pintoras ao longo da história?

CP: Pintar nus sempre foi difícil. Até o século XVII homens muitas vezes eram os modelos de nus femininos. E, sim, mesmo no século XIX, as mulheres não podiam pintar nus. Mas isso era apenas uma pequena questão perto das outras coisas que elas não podiam fazer. Elas não podiam estudar arte. E educação artística, assim como construir uma rede de contatos, trabalhar em um ambiente que as inspirasse, receber encorajamento e ter espaço para competição é importante para o desenvolvimento de um artista.
EM: E você acredita que é possível que mulheres alcancem o mesmo grau de visibilidade dos homens na arte?

CP: Na Holanda, as coisas estão mudando muito rápido e sou otimista com relação a isso, mas eu não saberia dizer se isso é um fenômeno global, não dá para dizer que as oportunidades para as mulheres são iguais em todos os lugares do mundo. Não tenho como prever o futuro, mas essa instabilidade política pela qual estamos passando é algo para se levar em consideração quando falamos de direitos das mulheres. Creio que temos que fazer nossa parte educando nossas filhas – e também nossos filhos – para serem pensadores críticos, refletirem, pensarem e a não simplesmente aceitarem as coisas do jeito que são.

EM: E qual é a sua história como artista?

CP: Eu pintava muito quando era criança, e sabia desde cedo que iria estudar Artes. Entrei na universidade pensando em me tornar pintora, mas acabei saindo como fotógrafa. Penso em mim como alguém que pinta com a luz. A pintura clássica dos séculos XV, XVI e XVII têm muito impacto no meu trabalho, e como artista contemporânea, busco nela elementos para criar a minha própria linguagem. Uso apenas luz natural nos meus retratos porque sua beleza é insuperável: eu consigo ver quando a mágica está lá ou não. Se a luz não está boa, é horrível fotografar.

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Carla van de Puttelaar, Rembrandt Series, 2016, Archival Pigment Print

O império da irrealidade

a despersonalização é um sintoma comum em quem sofre de ansiedade.
 
você de repente sente que você não é bem você, se sente um obsevador da própria vida, como se olhasse os próprios processos mentais de fora. é como se você estivesse em um mezanino, vendo seus pensamentos e sentimentos acontecendo lá embaixo. e quando você para de observar a si mesmo sem entender muito bem e olha pro mundo, tudo parece meio IRREAL.
às vezes as coisas parecem se desenrolar à sua volta em câmera lenta. às vezes parece que tem uma NÉVOA em volta das pessoas. às vezes parece que tem muita luz. às vezes parece que as coisas simplesmente não são VERDADE e você se pergunta se não está delirando. você se sente num filme mesmo, e se questiona “SERÁ QUE EU NÃO ESTOU ENLOUQUECENDO?”.
 
bom, aí ontem eu estava assistindo o JN e bateu essa onda PESADAMENTE enquanto passava a notícia cortina de fumaça da vez de dudu bolsonaro possível indicado a embaixador. eu dei um zoom out, meu cérebro deu aquela enguiçada e uma neblina tomou conta da minha sala e eu tive a nítida sensação de que a minha sanidade estava escapando pelo buraco do meu ouvido e pelas minhas foças nasais mas aí eu pensei
 
cara essa sensação de irrealidade é 100% real, o Brasil 2019 é um delírio coletivo.
 
despersonalizaram a nação.
minhas crises de ansiedade estão cada vez mais psicodélicas.
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Podcast sobre investimentos com @mari.congo

O capitalismo tardio não é uma delícia e é verdade que CEOs concentram cada vez mais renda e que millennials andam por aí como se alugassem os lugares. O meio ambiente está colapsando, talvez daqui a 30 anos você nem tenha que se preocupar com a quebra do sistema da previdência porque o apocalipse seja iminente devido ao aquecimento global que nosso governo gosta de negar embora a nata do capitalismo já não negue.

Mas fato é que uma mulher moderna do Século XXI precisa de independência financeira, uma das melhores e mais eficientes maneiras de não ser controlada por homens heterossexuais. E se você já chegou nesse ponto, lembre: não gaste seu dinheiro sustentando ou agradando o bebê de 30 e poucos anos do seu namorado ou marido, poupe todo o excedente: destine-o a planos de longo prazo, como a aposentadoria (se o mundo chegar lá) e de curto prazo (férias na Europa com seus amigos gays ou amigas piranhas, sem seu namorado para atrapalhar a diversão, por favor).

Sabendo da importância do mundo das finanças, aqui vai o LONGO porém relativamente divertido podcast que eu fiz com a Mariana Congo e que teve uma PROVIDENCIAL participação de Clara Averbuck.

PARA OUVIR CLIQUE AQUIIIII

e aqui no Spotfy

minha racionalidade claustrofóbica

Quando eu estou ansiosa (praticamente sempre) minha cabeça vai muito longe contemplando o melhor que pode me acontecer e depois encontrando maneiras cada vez piores de destruir cada uma dessas possibilidades. É um nível de detalhes patológico.

– Eu vou comprar um bilhete da mega-sena. Eu ganhei na mega-sena. Eu não vou ser louca, vou investir 90% do dinheiro logo de cara. 30% em títulos relativamente líquidos. 60% distribuirei entre 3 gestores de recursos bons para que eles apliquem em carteiras diversificadas de longo prazo. Os 10% eu vou deixar na minha conta. Eu vou pedir demissão e vou chamar minhas amigas pra passarem o verão Europeu em um Air Bnb comigo, mas eu não vou viver a vida muito louca 24/7, eu vou contratar um personal trainer espanhol gostoso pra ficar malhada. Aí começa: o governo vai dar calote, seus títulos vão virar pó, a democracia vai colapsar, seu dinheiro investido com gestores não vai valer nada em um mundo pós-apocalíptico e quente. A realidade é que vc vai sim passar sete dias por semana bebendo vinho em excesso, usando ecstasy e cocaína, fazendo sexo desprotegido e comendo fritura. Ao fim de 4 meses você estará com gastrite, neurotransmissores desequilibrados – uma depressão ansiosa histriônica ou uma crise de hipomania raivosa, ou talvez tudo ao mesmo tempo – sífilis. E vários quilos a mais.

E É ASSIM QUE EU NÃO SAIO PRA COMPRAR UM BILHETE. Mas se vendesse pelo Rappi, ok, eu já teria programado a compra semanal, pois antes de tudo, sou uma pragmática.

A subjetividade é uma prisão, a racionalidade é claustrofóbica.